Movida pelo senso de justiça e pelo propósito de proteger vidas e preservar famílias, sem permitir que o preconceito defina limites. Assim pode ser resumida a trajetória da delegada de Polícia Civil do estado de São Paulo Adriana Ribeiro Pavarina Franco, de 42 anos, titular da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) de Presidente Prudente (SP).
A trajetória policial de Adriana começou aos 23 anos. Recém-formada em direito, ela acompanhava oportunidades de concursos públicos, mas muitos deles exigiam três anos de atividade jurídica. Na época, porém, o concurso para delegado de polícia ainda dispensava esse requisito e acabou chamando a atenção da jovem advogada.
“Com apenas seis meses de formada, fui aprovada. Foi uma conquista muito precoce e extremamente desafiadora, mas também a confirmação de que eu estava no caminho certo”, contou a delegada ao g1.
Adriana ficou em primeiro lugar no concurso e tornou-se a delegada mais jovem do estado de São Paulo à época.
Adriana contou que costuma dizer que, na polícia, a capacidade do homem é presumida, mas a da mulher precisa ser provada.
“Isso revela um traço estrutural da nossa sociedade. Mas nunca permiti que isso me desmotivasse. Ao contrário, transformei cada desafio em combustível para trabalhar com excelência técnica e postura firme”, destaca.
Com a aprovação, Pavarina atuou em casos diversos, e foi na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) que consolidou um dos capítulos mais marcantes de sua trajetória. A unidade contou com sua atuação por quase 12 anos.
“[Na DDM] Lidei diariamente com a dor, a vulnerabilidade e a violência doméstica, e senti que precisava enfrentar também a raiz de muitos desses problemas sociais.”
Veja no vídeo abaixo o resumo de uma das ocorrências de combate ao tráfico de drogas lideradas pela delegada na Dise.
Ocupando o cargo de liderança na unidade especializada, Adriana cita que essa posição significa, antes de tudo, responsabilidade e representatividade.
“Quando uma mulher ocupa um espaço de liderança na segurança pública, ela não está ali apenas por si, ela simboliza a possibilidade real de outras mulheres também chegarem”, pontua.
Durante muito tempo, esses espaços foram vistos como naturalmente masculinos. Para Adriana, estar à frente de uma equipe, coordenar operações, tomar decisões estratégicas e assumir riscos demonstra, na prática, que competência, coragem e capacidade de comando não têm gênero.
A atuação profissional de Adriana tem um estilo técnico, firme e baseado em responsabilidade, honestidade e respeito. Ela acredita em “liderança pelo exemplo” e destaca que o chamado “olhar feminino” não significa fragilidade, mas, sim, sensibilidade estratégica.
“A mulher, muitas vezes, consegue conciliar rigor com escuta ativa, firmeza com empatia. Isso fortalece a equipe e amplia a capacidade de gestão de conflitos”, explica.
Segundo Adriana, a presença feminina deixou de ser exceção e passou a ser realidade na segurança pública. Hoje, é possível ver mais mulheres ocupando cargos estratégicos, chefiando unidades e coordenando operações complexas. Ainda assim, segundo ela, existem barreiras.
“O machismo estrutural não desaparece de uma geração para outra. […] Ainda há caminho a percorrer, mas avançamos muito, e avançamos porque mulheres decidiram não esmorecer”, comenta.
Para a delegada, ocupar espaços de liderança também exige encontrar formas de lidar com as pressões da profissão. Em uma área marcada por decisões difíceis e situações limite, ela afirma que o equilíbrio emocional e o propósito no trabalho são fundamentais para seguir em frente.
Mas, além da disciplina emocional e do preparo técnico constante, Pavarina credita sua força à fé. Como cristã, católica e Ministra da Eucaristia, ela afirma que é ao servir a Deus e depositar Nele confiança, esperança e proteção que encontra serenidade para enfrentar os desafios da profissão.
“A segurança pública exige racionalidade, firmeza e estratégia, mas também exige humanidade. A fé me lembra diariamente que, por trás de cada ocorrência, existem vidas, famílias e histórias. E é essa consciência que me ajuda a manter o equilíbrio entre o rigor da função e a sensibilidade necessária para exercê-la”, diz.
Para Adriana, o Dia Internacional da Mulher não é apenas uma data comemorativa. Segundo ela, é um marco de reflexão sobre igualdade, respeito e oportunidades. “Para mim, que atuo em uma profissão historicamente masculina, essa data simboliza resistência, conquista e continuidade da luta por reconhecimento baseado em mérito”, conta.
Assim, a delegada revela que, ao olhar para sua trajetória, sente uma mistura de gratidão e responsabilidade. “Gratidão por ter construído uma carreira sólida, baseada em estudo, trabalho sério e ética. E responsabilidade por tudo o que cada conquista representa”, explica.
Entre as conquistas, Adriana lista condecorações e elogios funcionais, como o reconhecimento de “Policial Nota 10” e medalhas do Exército Brasileiro e da Força Nacional de Segurança Pública.
“Não é apenas uma honra pessoal. Para mim, é a confirmação de que o esforço valeu a pena e de que a dedicação diária, muitas vezes silenciosa, faz diferença”, continua.
Ao g1, Adriana ainda compartilha que algo que a emociona é perceber que seu trabalho ultrapassou os muros da instituição, já que o reconhecimento não vem apenas da Polícia Civil, mas também da sociedade e de outras forças de segurança.
“Isso mostra que nossa missão vai além do dever funcional, ela é um compromisso humano com a vida e com a dignidade das pessoas. E, acima de tudo, tenho orgulho de nunca ter permitido que o preconceito definisse meus limites.”
Como mensagem às mulheres, Adriana diz para nunca permitirem que o mundo defina os limites dos seus sonhos nem aceitarem que digam o que podem ou não podem ser.
“Se quiserem ser delegadas, médicas, engenheiras, militares, cientistas — ou qualquer outra coisa que o coração de vocês desejar — estudem, se preparem, persistam. O caminho pode ser mais difícil. Haverá obstáculos, alguns visíveis e outros silenciosos. Haverá momentos em que vocês precisarão provar mais, falar com mais firmeza e trabalhar dobrado. Mas nada disso é maior do que a força de uma mulher determinada”, orienta.
Adriana reforça que ainda existe um machismo estrutural que não pode ser ignorado. No entanto, afirma que ele não é maior do que a capacidade, inteligência e coragem femininas.
“A mulher pode ser tudo o que ela quiser. Pode ser líder. Pode ser autoridade. Pode ser referência. Pode estar onde decidir estar. E, quando uma mulher ocupa o espaço que escolheu, ela abre caminho para muitas outras que virão depois dela”, finaliza.
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Fonte Original: G1
