Com baixo custo e pouco trabalho no dia a dia, ter abelhas em casa se tornou uma opção para quem deseja um “pet de baixa manutenção”. As espécies nativas do Brasil não têm ferrão e, apesar de serem animais silvestres, não existe necessidade de uma licença ambiental para pequenas criações. A prática, inclusive, é incentivada por especialistas. Veja no vídeo acima como funciona a meliponicultura.
Em Umuarama, no noroeste do Paraná, o Campus Regional da Universidade Estadual de Maringá (UEM) desenvolve ações para estimular a criação como forma de conservar espécies nativas ameaçadas de extinção. Valdir Zucareli é responsável pelos meliponários do local e explica que as abelhas sem ferrão são inofensivas e dóceis.
🔎🐝 Abelhas-sem-ferrão pertencem à tribo Meliponinos, por isso o local onde elas são criadas se chama Meliponário. Elas são cruciais para a polinização da flora nativa e produzem menos mel, mas com valor medicinal e gastronômico mais alto. As abelhas com ferrão pertencem ao gênero Apis, como a Apis mellifera ou africanizada. Elas são criadas em Apiários, principalmente para alta produção de mel, própolis e cera em larga escala.
Segundo o especialista, a mais conhecida e indicada para quem quer começar a criar abelhas como pet são as da espécie Jataí. Contudo, na região norte e noroeste do Paraná, também é comum a aparição das Mandaçaias, Mirins e Mandaguaris – esta última, aliás, dá nome a uma cidade da região, devido à incidência deste tipo de abelha.
Embora exista no Brasil um mercado para a meliponicultura como negócio, Zucareli destaca que, na criação de abelhas como pet, o foco não é a produção de mel nem a geração de renda. Nesse caso, os objetivos são a recreação, a observação e a conservação da espécie. E pessoas de todas as idades podem cuidar de uma colmeia.
O projeto de conservação das abelhas sem ferrão na UEM existe há pouco mais de três anos, em Umuarama. São dois meliponários didáticos: um localizado na fazenda da universidade, que abriga oito espécies nativas, e outro no Bosque Uirapuru, com seis tipos de abelhas.
Zucarelli explica que o objetivo dos espaços é a educação ambiental, permitindo que a população participe de visitas guiadas e aprenda sobre a importância das abelhas e os cuidados necessários para a criação.
Devido à alta demanda a universidade não forne e mais as colmeias para a população em geral. AS doações agora são feitas apenas para escolas, unidades do Centro de Socioeducação do Paraná (Cense) e instituições de longa permanência para idosos.
No entanto, o projeto doa iscas feitas com garrafas pet e oferece cursos e oficinas que ensinam como capturar colmeias. Após a captura, os especialistas também ensinam a transferir as abelhas para caixas de madeira ou casinhas ornamentais para jardins.
Foi em um desses cursos que Vinicius dos Santos Leite da Silva consolidou a paixão pelas abelhas. Aos 12 anos, ele cuida em casa de quatro colmeias de Jataí e uma de Mandaçaia.
Tudo começou quando, aos 10 anos, a avó o estimulou a abrigar uma colônia de abelhas sem ferrão que estava no muro da casa. Vinicius gostou tanto que começou a pesquisar sobre o tema na internet. O interesse dele só cresceu desde então.
Ele foi incentivado por uma conhecida da família a ir até a UEM para visitar o meliponário e aprender com Zucareli. O cuidado com as abelhas deu início a uma amizade entre o especialista e o garoto. Os dois contam que até já trocaram espécies.
Vinicius conta que tem outros animais de estimação — passarinhos, cachorros e um hamster —, mas é ao cuidado com as abelhas que ele realmente gosta de se dedicar. O garoto até criou uma rotina e reserva vários momentos do dia apenas para observá-las.
A meta agora é criar outras espécies. Ele também aprendeu a fazer iscas e tem várias separadas para colocá-las em casa e na chácara de familiares.
André Leite da Silva, de 46 anos, é pai de Vinicius e fala com orgulho sobre o interesse do filho pelos animais.
As 55 anos, Soraia Santos de Liro Guirão é outra entusiasta das abelhas pet. Apaixonada por animais de estimação, ela tem seis gatos em casa. Apesar de querer ter mais bichinhos, a falta de tempo fez com que ela optasse por pets que tivessem baixa manutenção.
Soiraia trabalha como auxiliar operacional da UEM e conheceu as abelhas sem ferrão através do professor Zucareli. Depois, ela resolveu aprender mais e fez um curso sobre o assunto, onde se apaixonou a cada nova espécie descoberta.
A primeira colmeia foi adquirida em agosto de 2025, com abelhas da espécie Mandaçaia. No início de 2026, após espalhar diversas iscas, ela também conseguiu formar uma colmeia deJataís, que logo será transferida para uma caixa adequada.
Zucarelli explica que, apesar das abelhas serem consideradas como pets de baixa manutenção, elas também precisam de alguns cuidados.
Durante o manejo das abelhas, Soraia afirma que sempre fica atenta ao aparecimento de predadores, principalmente os forídeos, pequenas moscas conhecidas como “as principais inimigas das abelhas sem ferrão” por invadirem as colmeias para depositar seus ovos.
Soraia também observa sempre a robustez da colônia. Segundo ela, caso esteja fraca, é preciso fornecer um alimento energético às abelhas, à base de água, açúcar e limão. Se estiver forte e crescendo, a colmeia pode até ser dividida para ser transformada em uma nova.
No Paraná, a criação de abelhas sem ferrão é regulamentada pela Lei Estadual 19.152/2017, que estabelece as regras para manejo, comércio e transporte de espécies nativas. A norma reconhece as abelhas sem ferrão como fauna silvestre brasileira e autoriza sua criação para fins de conservação, educação ambiental, pesquisa, lazer e consumo familiar de mel.
A legislação também diferencia espécies nativas de exóticas e determina que a atividade pode ser realizada por hobby. Não é exigida licença ambiental para criadores com até dez colmeias, embora a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) recomende o cadastro a todos os criadores. Produtores que tenham mais de dez colmeias ou tenham intenção de comercializar produtos da meliponicultura são obrigados a fazer o cadastro na Adapar.
Zucareli aconselha que os pequenos criadores realizem o cadastro na unidade mais próxima da Adapar e registrem a quantidade de espécies que possuem.
“Isso é indicado para que possam fazer o mapeamento de espécies conservadas no estado e número de meliponicultores”, explicou o professor.
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Fonte Original: G1
