Headliner do Lollapalooza Brasil deste sábado (21), Chappell Roan era um nome relativamente desconhecido até 2024. Com um ano, a cantora já era considerada a grande revelação do pop, reunia um público gigantesco em seus shows e levava Grammys.
Apesar de estar realizando sonhos, Chappell não aceitou o sucesso incondicionalmente. Nos últimos anos, a cantora passou a impor limites nessa exposição – e tem conseguido resultado. Tanto que, com a vinda dela ao país dos fãs apaixonados, o fã-clube já aproveitou para lembrar que o amor também é bom-senso.
Pode parecer um pedido simples, mas é bastante atípico, fruto da postura da própria artista. Com o tempo, Chappell vem “ensinando” fãs e mídia a repensar a forma que lidam com celebridades – sem se importar se é vista como “chata” por isso. Entenda como Chappell Roan tem conseguido uma (lenta) mudança na indústria pop:
Chappell investe na carreira musical há anos, chegou a perder o contrato com a gravadora e quase desistiu do sonho de ser artista. Mas em 2023, ela fez uma nova aposta e lançou seu primeiro álbum, “The Rise and Fall of a Midwest Princess”.
Em 2024, a virada veio com força. Desde que a cantora se apresentou em festivais como o Coachella e abriu a turnê de Olivia Rodrigo, seus números mudaram drasticamente.
Com essa ascensão brusca à fama, ela logo se impôs. “Eu não quero o que diabos você acha que tem direito sempre que vê uma celebridade. Eu não dou a mínima se você acha que é egoísmo da minha parte dizer não para uma foto ou para seu tempo ou para um abraço. Isso não é normal”, disse em vídeos nas redes sociais.
A intenção de Chappell foi falar de um caso próprio, mas a cantora acabou pautando uma dicussão mais ampla. “Chappell Roan e seus fãs podem mudar a cultura de fãs tóxicos e celebridades para sempre”, escreveu a Teen Vogue. “As estrelas pop estão chamando a atenção de fãs ‘bizarros’. Já era hora”, apontou o Business Insider.
Além disso, o tópico era uma espécie de tabu entre as celebridades, já que a convenção “velada” é de que um artista deve aceitar e ser grato pelos seus fãs incondicionalmente. Mas após Chappell, celebridades passaram a se posicionar a favor de alguns limites.
“‘Limites’ não é uma palavra que nós, da Geração X, fomos ensinados. É algo muito importante para desenvolver em sua própria vida. Mas todo ser humano andando por aí com uma câmera no bolso, isso não ajudou nos limites”, disse a atriz Maya Rudolph à “Variety”.
Ela também ficou conhecida por “enfrentar” os paparazzi em diversas ocasiões. Neste ano, chegou a filmá-los, dizendo que apenas queria ir jantar e as pessoas “não a deixavam em paz”.
Para a professora e pesquisadora de fandoms Aianne Amado, a parte prejudicial (e por vezes, fatal) da fama é um tópico antigo, incluindo casos como John Lennon e Marilyn Monroe. Mas ela acredita que nos últimos anos, “especialmente a partir do escândalo do #FreeBritney, essa questão tem, finalmente, ganhado a relevância que merece”.
Mas se por um lado, a discussão passou a ficar mais presente, por outro, ela também ficou mais complexa. Com as redes sociais, artistas passaram a coexistir com seus fãs em uma mesma linha do tempo, e se tornou praticamente impossível distinguir as esferas pessoais e profissionais.
Isso se intensificou graças à influência de nomes como Taylor Swift, que construíram um nome ao borrar a fronteira entre vida e carreira.
O problema é que esse sentimento que os fãs criam por um ídolo, sobretudo aquele que se expõe muito nas redes ou em suas letras, é de uma natureza totalitária e platônica – sem limites, aponta a psicanalista Cínthia Demaria.
A psicanalista acredita que as redes sociais intensificaram e centralizaram essa exposição. Graças à internet, o público (tanto fãs, quanto haters) passou a ter a sensação de que é permitido fazer e falar de tudo com uma celebridade.
Aianne acrescenta que a relação de idolatria “ainda é unidirecional”, mas parece mais recíproca para o fã. “O ídolo não tem ideia ou ação sobre o fã individualmente, porém o fã passa a ter acesso ao seu íntimo, sua rotina (muitas vezes demonstradas pela própria celebridade, em um story gravado olhando para a tela, ainda de pijama no seu quarto). Isso aumenta o senso de proximidade que o fã sente”.
Chappell já se tornou famosa com as redes sociais e após uma série de acontecimentos centrais na indústria, incluindo a exposição do caso Britney Spears. E assim, a jovem cantora preferiu bancar a imagem de “chata” e “difícil” que se permitir passar pelo escrutínio midiático.
Para Aianne, Chappell representa uma geração de artistas adepta a discussões de saúde mental e do direito da mulher sobre seu próprio corpo. E por isso, “vai contra a maioria ao prezar pela separação entre sua persona artística e sua persona no dia a dia, com família e amigos”.
Cínthia acredita que a posição da artista pode frustrar o público por ir contra o “amor totalitário” dos fãs, que não compreende limites. “Quando a gente idolatra alguém platonicamente, ela não tem defeito. Mas o encontro real, quando esse amor platônico é furado, ele vai ser sempre frustrante. A pessoa é um sujeito, não tá à disposição o tempo inteiro. O que Chappell faz nessa posição é muitas vezes de frustrar essa expectativa, que ela não vai aceitar ser amada e devastada sem consequências”, explica.
E será que essa posição dela pode causar uma mudança real na indústria? Para Aianne, a resposta tem indicado caminhos positivos. “Por muitos anos, o mercado acatou essa visão e exigia uma postura complacente das celebridades, o que só reforçava esse pensamento. Mas esse discurso vai ao encontro da marca que ela (em sua personagem) estabeleceu com o público, e se trata de um debate caro à geração que a acompanha”.
Fonte Original: G1
