Poucas turnês comemorativas trouxeram um debate tão polarizado entre a técnica e a emoção quanto os dois shows com Wagner Moura nos vocais da Legião Urbana. Para os músicos remanescentes, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, foi uma catarse coletiva e uma homenagem à memória de Renato Russo.
Para a crítica e para uma parte mais exigente dos fãs de Legião, aquele foi o pior papel interpretado por Moura, que concorre ao Oscar de Melhor Ator por “O Agente Secreto”.
A decisão de convidar Moura para liderar o tributo nos 30 anos de criação da banda não foi por acaso. O convite partiu de Dado e Bonfá. Eles nunca viram no ator um substituto técnico, mas alguém com uma “energia legionária”.
O “teste” para o papel veio em trilhas sonoras: em “O Homem do Futuro” (2011), ele cantou “Tempo Perdido”; e em VIPS (2010), deu voz a “Será”. As duas performances deixavam bem claro: o que unia Wagner e Renato era a teatralidade.
A experiência de Moura como cantor não vinha só do cinema. Em 1992, em Salvador, ele fundou a banda Sua Mãe com amigos da faculdade de jornalismo. O som misturava o pós-punk de grupos como The Cure e Smiths com o brega de Waldick Soriano e Odair José.
Quando o convite para o tributo chegou, Moura estava filmando “Praia do Futuro” na Alemanha. Aceitou por ser fã e pelo desejo de cantar com seus ídolos. Evitar um imitador de Renato Russo era vital para que o projeto fosse visto como um tributo, e não uma substituição.
A vida foi curta: duas noites no Espaço das Américas, em São Paulo, em maio de 2012. O objetivo era a gravação de um especial da MTV, com direção de Felipe Hirsch. O evento contou ainda com Andy Gill, do Gang of Four, banda que Renato Russo amava, e Bi Ribeiro (baixista dos Paralamas do Sucesso).
Nem tudo foi celebração. Um conflito jurídico ameaçou o evento. Giuliano Manfredini, filho de Renato Russo e detentor da marca “Legião Urbana”, mantinha uma relação tensa com os músicos. Impedidos de usar o nome original, Dado e Bonfá tomaram todo o cuidado para não correrem riscos. Mesmo assim, Manfredini questionou o preço dos ingressos e a escolha de Moura. A disputa quase fez o projeto ser cancelado.
Na estreia, no dia 29 de maio de 2012, o som foi prejudicado por microfonias e outras falhas técnicas. Foram errinhos aqui e ali, como a vez em que Bonfá interrompeu a introdução de “Pais e Filhos” para recomeçar a música após um erro. Quem gostou disse que parecia um ensaio aberto, uma coisa íntima.
Wagner Moura, super emocionado, enfrentou dificuldades para se manter afinado. Ganhou a plateia mais na garra e na devoção. O ponto alto foi a inclusão improvisada de “Faroeste Caboclo”. A música não havia sido ensaiada, mas ao ver sete mil pessoas cantando a letra quilométrica, o ator decidiu se jogar. Deu certo. O fato de a letra ser mais falada do que cantada, claro, ajudou.
Apesar das críticas e da sensação de que o show parecia um “karaokê” de luxo, muitos fãs se sentiram representados pelo suor de Moura. O ator defendeu sua performance contra o que chamou de “idiotice” dos críticos que esperavam uma imitação perfeita.
Em 2021, no podcast “Mano a Mano”, ele falou do tributo com bom humor. Admitiu a baixa qualidade técnica, mas reafirmou o valor sentimental, descrevendo-se como “um fã que eles cataram na plateia”.
Uma trajetória que segue com momentos igualmente incríveis, incluindo prêmios de Melhor Ator no Globo de Ouro e no Festival de Berlim.
Fonte Original: G1
