A estética do grande hit de animação “Guerreiras do K‑Pop”, indicado ao Oscar de Melhor Animação e de Melhor Canção Original, chama atenção por seus movimentos menos fluidos, quase travados, que lembram stop‑motion.
O que pode até parecer erro na verdade é escolha estética: o filme usa o “animar em dois”, técnica que repete quadros e cria rupturas rítmicas. Isso mexe com a maneira como o cérebro processa o movimento, e o g1 foi atrás da explicação para essa “crocância visual” do filme.
Em entrevista ao g1, o artista animador de personagens 3D Marcelo Zanin explica que animar em dois não é nenhuma grande invenção recente. Mas juntar essa técnica com animação 3D, isso sim, trouxe algo novo.
Com mais de 15 anos de experiência, Zanin trabalhou na equipe da Sony Pictures Animation em “Homem-Aranha: Através do Aranhaverso”, que foi um marco nesse contexto. A produtora de animações da Sony, inclusive, também está por trás da produção das “Guerreiras” para a Netflix. O animador lembra que parte da própria equipe de artistas do filme inicialmente reagiu com estranheza.
Você talvez se lembre do impacto visual que teve o lançamento do primeiro “Toy Story”, em 1995. Foi um marco que indicava o quanto as animações 3D podiam surpreender justamente por conta da fluidez de movimentos e do realismo das imagens. De lá para cá, a evolução foi exponencial.
Fazer uma animação 3D em dois vai na contramão disso. E isso pode ter a ver com o sucesso de “Guerreiras do K-Pop”.
Ele explica que, tradicionalmente, as animações em desenho a mão no começo do século passado começaram a ser feitas com 24 frames por segundo por uma questão técnica que envolvia a sincronização do áudio, mas os animadores logo chegaram a uma solução para tornar o processo da imagem menos custoso (tanto para os artistas quanto economicamente).
Eles perceberam que dava para repetir esses quadros de dois em dois em boa parte das cenas com menos movimento, ou seja, criar 12 desenhos por segundo em vez de 24. A mudança praticamente não afetava a percepção do espectador. Essa técnica foi chamada de animação “on twos”, ou “em dois” em português.
Zanin traça uma linha histórica das últimas décadas para justificar que muitas vezes o sucesso das animações, entre tradicionais e 3D, está sujeito a essas mudanças de direção.
“A indústria busca estilos diferentes. A animação tradicional foi o que mais me inspirou. Daí veio o 3D com ‘Toy Story’ e foi se estabelecendo. Aí a galera da grana começou a acelerar, a comparar a técnica. E aí veio o ‘Shrek’. ‘Shrek’ foi o anti-Disney, e aí teve toda aquela fase de animação de comédia. E aí vem 2010, vem o ‘Enrolados’, da Disney. A galera sentiu saudade da Disney, sabe? Voltou a ver musical. Aí agora a gente está nessa de novo, vai vir outra coisa. Então tem essas oscilações de demanda em que as pessoas tentam buscar o que essas crianças vão assistir”, contextualiza o animador.
Cenas animadas em dois acionam um mecanismo natural de percepção, como um jogo bem rápido de completar imagens. Quando vê que estava certo, o cérebro se satisfaz.
Brainer é professor de neurologia e informática da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e enxerga um paralelo entre a técnica usada em “Guerreiras do K-Pop” e um estudo publicado recentemente sobre o cérebro do tiktoker.
“É um cérebro que se torna mais excitado junto àquelas imagens que são mostradas, áreas cerebrais que são estimuladas e representam zonas de prazer do nosso cérebro. É algo bem parecido, os princípios se mesclam”, conta.
Segundo ele, a animação em dois ativa um processo que em neurofisiologia é chamado de “interpolação processual”.
“Você cria essa fragmentação e, para você decodificar o que é o restante dessa fragmentação, você precisa de atenção“, explicar Brainer. “É como se, a cada momento que o os frames aparecem, o seu cérebro estivesse sendo chamado à atenção. É como se alguém estivesse puxando você.”
Não segundo o neurologista. Brainer explica que não há tempo suficiente para criar vício, apesar de o processo ativar áreas dopaminérgicas, que são as áreas responsáveis pelo vício.
“Ele é na medida certa. (…) Ele cria o prazer, você cria a vontade de ver de novo, mas ao mesmo tempo sem um vício por trás, porque a quantidade de dopamina levantada não é a suficiente para deflagrar o vício.
Lançado no ano passado, “Guerreiras do K-Pop” (“K-Pop: Demon Hunters”) se consolidou como um fenômeno cultural. A produção da Sony Pictures Animation para a Netflix acompanha a história de um grupo feminino de cantoras pop que, nos bastidores, participam de batalhas sobrenaturais. Seus inimigos também têm uma vida dupla: demônios e integrantes de uma boyband.
Elogiado pela crítica devido à mistura de estética vibrante, coreografias complexas e respeito ao folclore asiático, o filme furou a bolha. Tornou-se o longa original mais reproduzido na plataforma de streaming, impulsionado por uma trilha sonora que viralizou em aplicativos de vídeo curto.
Fonte Original: G1
