O que o Brasil tem vivido no Oscar e em outras premiações internacionais é inédito. Levamos a primeira estatueta em 2025 com “Ainda Estou Aqui” e podemos levar mais alguma neste domingo (15), com “O Agente Secreto” indicado a quatro categorias.
Para quem vivia órfão do quase-Oscar de Fernanda Montenegro e “Central do Brasil”, foi uma longa caminhada. Mas será que vamos seguir na boa toada nos próximos anos? E será que esses feitos lá fora ajudam o cinema aqui dentro?
Infelizmente, não é tão simples. Ao g1, cineastas da nova geração avaliam o “bom momento” e reforçam que o futuro segue incerto. Eles resumem a situação em dois pontos:
Não é passo de mágica nem sorte. Os cineastas ouvidos pelo g1 lembram que “Ainda Estou Aqui” (Walter Salles) e “O Agente Secreto” (Kleber Mendonça Filho) são casos singulares, com alguns fatores em comum que possibilitaram esse sucesso:
Em um painel no Festival de Tiradentes, o produtor Rodrigo Teixeira destacou que ter o cinema brasileiro indicado à categoria de Melhor Filme no Oscar por dois anos consecutivos representou, sim, um “empoderamento” histórico para o setor.
Mas o produtor defendeu que esse prestígio internacional não pode ser um evento isolado: tem que servir para o aprimoramento de políticas públicas e para a renovação de talentos, porque os cineastas que vencem hoje têm uma trajetória de décadas.
Rodrigo acrescentou que, a essa altura no ano passado, já rolava um burburinho em torno de “O Agente Secreto”. Não é o caso desta vez.
Mas o que Rodrigo disse no painel, e está claro para quem quer que procure, é que não faltam bons novos cineastas no Brasil. O que falta é recurso para que sigam os passos de Kleber e Walter.
É o caso de Gabriel Martins, que assina “Marte Um”. O filme de Martins foi escolhido para representar o Brasil no Oscar em 2022, mas o diretor disse ao g1 que até hoje tem dificuldades para seguir produzindo.
Com Oscar ou não, a produção de filmes em praticamente qualquer país depende de incentivos e recursos públicos. “O Agente Secreto” só pôde ser feito, em parte, graças ao fomento do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).
Ao g1, Matheus Peçanha, cineasta e um dos diretores da Associação de Produtoras Independentes, reforça que é impossível falar do cinema nacional sem entrar nessa questão.
Então, esse é o parâmetro: mais do que reconhecimento internacional, o que aponta o futuro do cinema nacional é o incentivo público. Infelizmente, os entrevistados afirmam que os cineastas independentes não vêm tendo o apoio necessário para seguir produzindo.
Ao g1, o Ministério da Cultura declarou que o comitê gestor do FSA (Fundo Setorial de Audiovisual) ampliou os investimentos em R$ 100 milhões para a Chamada Pública de Produção Seletivo de Cinema de 2024. O edital passou a contar com R$ 260 milhões para financiar longa-metragens para o cinema.
Na nota, o órgão disse que também optou pela união dos editais seletivos de cinema de 2024 e 2025 “diante do volume e alta demanda por investimentos”.
O Ministério afirma que o lançamento de novos editais está previsto para abril deste ano.
Para Gabriel, a atenção internacional no Oscar e outras premiações impactou positivamente a forma que o cinema (e o próprio Brasil) é visto fora daqui. Neste ano, “O Agente Secreto” colocou o mundo para conhecer um pouco de Pernambuco, para falar de Carnaval e rendeu reportagens em grandes portais mundiais sobre a cultura nacional.
Mas por mais que a gente queira dizer que o futuro é promissor, quem está na indústria sabe que o buraco é mais embaixo.
Não é esse reconhecimento internacional que, por si só, vai garantir um futuro a longo prazo pro nosso cinema. Os cineastas dizem que falta mais investimento, incentivo e regulamentação.
“O que a gente está tentando gritar é sobre esse paradoxo: estamos num momento de dois anos em seguida, sendo celebrados em alto volume mundialmente. E quando corta para cá, a gente ainda se vê muito vulnerável em termos de produção. A gente entra num ano em que existe muita incerteza de editais”, diz Gabriel.
Fonte Original: G1
