“Raparigueiro”, “pirraça”, “mambembe,” “dor de corno”…. essas são algumas das expressões faladas em “O Agente Secreto”. O filme se passa no Recife dos anos 70, mas estreou direto no Festival de Cannes e rodou o mundo para concorrer ao Oscar neste domingo (15).
Nessa trajetória, tradutores encararam um processo pra lá de desafiador. Como fazer os gringos entenderem as gírias e cacoetes, tão importantes para a apreciação do filme? Ao g1, profissionais detalham o processo de adaptação do texto para o público estrangeiro. Veja abaixo:
Logo na cena de abertura, o filme impõe seu primeiro enigma: “Essa história se passa no Brasil de 1977, uma época cheia de ‘pirraça’”, diz a nota de rodapé, introduzindo uma das palavras mais complexas para a tradução internacional.
Na legenda em inglês, o termo virou mischief (travessura). Mas a expressão ali carrega mais do que birra ou maldade: é um estado de espírito político.
Para o diretor, a escolha da palavra foi estratégica. Em entrevista ao podcast “O Assunto”, Kleber Mendonça Filho reforçou que o termo serve para colocar o estrangeiro, desde o primeiro minuto do filme, em um “ar literário e pernambucano”.
Outras expressões regionais também foram utilizadas ao longo da obra. Quando o locutor da rádio introduz uma música para acalentar a “dorzinha de corno” (a angústia da pessoa que foi traída), a tradução surge como you’ve been made a cuckold (você foi feito de chifrudo).
Para Evaldo, adaptador paraibano radicado na França, a definição do que é local depende sempre do ponto de vista de quem traduz. “Até um ‘tá maneiro’ pode ser considerado uma expressão regional. O regionalismo é, no fim das contas, uma questão de referencial”, pontua.
Além de “pirraça”, “corno” e “raparigar”, o g1 montou um glossário com outras gírias regionais e expressões de época que também aparecem ao longo do filme “O Agente Secreto”.
Alguns termos, porém, foram mantidos propositalmente como “corpos estranhos” no texto estrangeiro. É o caso das palavras “macumba” e “coxinha”, além do tratamento de “Dona” Sebastiana, que não foi substituído por expressões como “Miss” ou “Mrs”.
A decisão partiu do próprio Kleber, como uma forma de preservar a autenticidade da obra. O processo de adaptação das legendas para o inglês durou um mês e meio.
Para Muriel Pérez, que adaptou o roteiro para o francês, contextualizar as contradições brasileiras foi mais desafiador do que traduzir termos isolados. “O público estrangeiro pode não ter dimensão do preconceito que existe contra o Nordeste do Brasil, por exemplo”, conta a francesa que morou no Recife em 2018.
Nesse processo de traduzir as particularidades locais, Muriel atuou como uma verdadeira mediadora cultural para que o projeto fizesse sentido lá fora. “Explicando desde a presença de tubarões no litoral até o simbolismo da La Ursa no Carnaval”, conta.
A versão traduzida foi utilizada nos editais de financiamento na França. Quando tinha dúvida sobre uma palavra ou expressão, recorria a um dicionário informal em português ou ligava diretamente para o diretor pernambucano.
“O Agente Secreto” concorre a quatro categorias no Oscar. A premiação acontece em 15 de março, em Los Angeles.
Fonte Original: G1
