Em 2016, a vida de Thaís Francielle Santos Miranda, de 34 anos, moradora de Presidente Prudente (SP), começou a passar por uma série de provações que testariam sua força ao limite.
O luto pela perda da mãe junto ao desafio da maternidade solo de dois meninos e a uma carga emocional exaustiva no trabalho como vendedora resultaram em um quadro de depressão, e posteriormente, no desemprego.
Foi em um momento de desespero, enquanto limpava a própria casa e chorava pedindo uma “luz”, que Fran percebeu o valor do seu capricho.
A pergunta simples marcou o início de uma virada. Até então, Fran acumulava diversas responsabilidades, já que, após a morte da mãe, em 2016, precisou assumir sozinha a criação dos dois filhos.
Na época, Fran trabalhava em uma empresa onde ganhava bem, fazia horas extras e batia metas. Conseguiu oferecer plano de saúde e babá aos filhos, mas o custo emocional foi alto.
Em 2019, a empresa fechou. Fran ficou desempregada e passou a aceitar os serviços que surgiam. Em uma das experiências, relata ter sofrido assédio moral. A situação agravou o quadro de depressão e a fez travar em entrevistas de emprego.
Foi então que ela decidiu apostar no que sempre soube fazer com cuidado e maestria: limpar. A primeira faxina foi em um apartamento pequeno. Ela cobrou R$ 70, o cliente gostou e a indicou para outras pessoas.
Mas o que começou como necessidade financeira se transformou em propósito: “Enquanto eu limpava a casa, eu limpava os pensamentos também”.
Ao entrar no mercado da limpeza, ela também enfrentou preconceito: “Eu sou uma pessoa de pele escura, pele preta, e eu sofri, sim, algumas situações de racismo. As pessoas me achavam inferior por eu estar fazendo limpeza”.
Além disso, ouviu que deveria “parecer menos inteligente” para conseguir contratos. Por um período, passou a acreditar que era inferior por exercer um trabalho braçal. Hoje, ela sabe que o próprio ofício e esforço foram o que a colocaram no patamar atual.
A mudança aconteceu quando decidiu enxergar o próprio trabalho como profissão e empreendedorismo. Foi nesse processo que nasceu a Maravilhosa Limpeza, nome inspirado na mãe e também em um apelido carinhoso que ouvia no ambiente profissional.
Quatro anos depois, Fran soma mais de 900 atendimentos. Atualmente, trabalha ao lado da companheira, Gabi, atendendo cerca de 20 casas por mês, principalmente residências de alto padrão em Presidente Prudente.
Mesmo formalizada como autônoma, Fran está em processo de abertura de CNPJ e investe em formação profissional. Ela faz cursos de liderança e técnico em recursos humanos, com o objetivo de estruturar a empresa e gerar oportunidades para outras mulheres.
“A gente está estudando para estruturar, para crescer mais e, quem sabe, ser mais uma porta de empregos aqui para Presidente Prudente”, relatou.
Nas redes sociais, ambiente no qual conta com mais de 7,6 mil seguidores, ela compartilha registros de antes e depois das limpezas e reflexões sobre o cotidiano da profissão. O objetivo é dar visibilidade a um trabalho que, segundo ela, costuma ser ignorado: “Ser invisível dói”.
Fran ainda relatou que muitas mulheres que atuam como diaristas enfrentam baixa autoestima, sobrecarga e dificuldades financeiras. Para ela, reconhecer o valor do próprio trabalho pode ser transformador.
A empresária fez terapia por anos, inclusive pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e atribui à fé um papel decisivo na superação. Ela acredita que conversar foi fundamental para sair do isolamento emocional.
Na semana do Dia Internacional da Mulher, Fran resume a própria trajetória em uma mensagem direta a outras mulheres que enfrentam luto, sobrecarga ou depressão: “Você é mais forte do que você imagina”.
Hoje, o sonho é transformar a Maravilhosa Limpeza em referência nacional e ampliar oportunidades para outras profissionais do setor.
Entre rodos, baldes e planos de expansão, a empresária, que um dia chorou diante de uma janela, agora fala de futuro com a segurança de quem reconstruiu a própria história.
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Fonte Original: G1
